A reapropriação do termo “Autista”: uma resenha do texto “Autistic as a Reclaimed Word”, de Cynthia Kim


Uma dúvida pertinente para pessoas alísticas ‒ isto é, pessoas não autistas ‒ refere-se à maneira de chamar este outro grupo. Entre as tentativas podemos encontrar "alguém com autismo" ou "que tem autismo", e alísticos podem ter dificuldade para entender o porquê do termo ser incorreto. Em seu texto "Autistic as a Reclaimed Word" (A reapropriação da palavra "Autista"), Cynthia Kim, uma escritora e empreendedora pertencente ao espectro, disserta sobre a importância de empregar uma conotação positiva à palavra e ao grupo perante a sociedade de forma geral.

Há um acordo entre a comunidade de que não há como estar "com autismo" ou "ter autismo". Não é algo que possam remover de si, jogar fora, não carregar mais consigo, não possuir mais ‒ não é uma doença, não é curável como uma e não pode ser tratada como uma. O autismo não é algo separado da pessoa que o apresenta, mas algo que faz parte dela e, sem ele, esta seria completamente diferente.

Entretanto, alísticos têm certo receio ao chamar pessoas autistas de, bem, "autistas". A palavra soa rude quando sai. Há hesitação, medo de "resumir" o indivíduo autista, que muitas vezes é um parente ou amigo íntimo, à sua condição. Mas isso implica, então, que o autismo é uma característica negativa, que deve ser escondido ou ignorado; afinal, como Cynthia exemplificou, ninguém diz "não chame o Tommy de inteligente, a inteligência dele não o define" ou "[pare de falar dos] olhos azuis de Kate, a cor de seus olhos não a define".

São características positivas ou neutras que, como tal, não precisam ter sua menção evitada. Ninguém pensa duas vezes antes de endereçá-las. Ser inteligente, belo, gentil, ou alto, ruivo, canhoto... Cada um desses são apenas adjetivos, traços inerentes à pessoa, e não são trocados por "uma pessoa com beleza" ou "que tem 'loirice'".

Então por quê evitam mencionar o autismo? A intenção é boa, mas ainda não há muita profundeza na reflexão. O próximo passo para a comunidade, conta Cynthia, é a reapropriação da imagem do autismo e do autista.

Como exemplo de palavras bem reapropriadas, a escritora apresenta a palavra Gay, antes usada como insulto e hoje já como característica inerente à pessoa; Queer, que "ainda está em processo[...], mas está chegando lá"; "Geek" e "Nerd".

Há uma fixação em ofender a inteligência do adversário ao relacionar a falta desta com uma doença ou transtorno mental. A autora explica que é possível notar isso em jogos ou comunidades online, onde podemos encontrar xingamentos como "Que coisa de autista" ou "Você é autista?". "Autista" se tornou uma nova versão da palavra "retardado" ‒ ambas reduzindo a outra pessoa a uma condição mental, e ambas reduzindo a condição a algo negativo, inferior e até risível. Nos jogos e esportes eletrônicos, a reapropriação do termo é necessária não só em sinal de respeito ao espectro, mas também para garantir o conforto de todos os jogadores e jogadoras pertencentes a este. O autismo não é digno de pena ou vergonha, mas sim, como dito antes, uma característica inerente à pessoa que o apresenta, e deve ser tratada como tal.

Cynthia define uma palavra passível de reapropriação como, antes de mais nada, uma palavra usada de forma pejorativa para com o grupo que ela escreve, logo "Autista" encaixa-se nesse quesito. A autora explica que esse processo precisa ser feito com a ajuda de adultos autistas, para agilizar essa redefinição perante à sociedade como um todo.

O Transtorno do Espectro Autista (TEA, que inclui todas as condições autistas, como autismo infantil e Síndrome de Asperger) há muito tempo é carregado de estereótipos negativos, inclusive antes mesmo da palavra "Autista" ser usada como xingamento. A reapropriação do termo não só visa separá-lo dessas conotações ruins, mas transformá-lo num símbolo de identidade e orgulho, ampliando assim "a percepção da sociedade quanto ao o que significa ser autista".

Em conclusão, é importante adicionar a explicação dada por Cynthia em entrevista para o blog de notícias sobre autismo para pessoas autistas, Thinking Person's Guide to Autism:

"Existe essa noção popular de que ter um membro autista na família automaticamente significa a ruína da família. As pessoas assumem que um companheiro autista vai ser um fardo ‒ que ele não será capaz de amar e cuidar dos outros membros da família como uma pessoa alística faria. Eu conheço muitos autistas adultos que são ótimos pais e estão em relacionamentos felizes e bem-sucedidos. Eles não são as exceções".