"Nós vamos te carregar, Riot"

 

Funcionários do campus de Los Angeles da Riot Games realizaram uma passeata contra o estúdio de games, na tarde da última segunda-feira, dia 6. Os empregados protestaram contra discriminação de gênero sofrida na empresa e a tentativa de silenciá-los, sendo esta a primeira manifestação sobre sexismo a acontecer dentro de uma desenvolvedora de jogos. O evento durou cerca de duas horas, contando com mais de 150 Rioters. A manifestação pacífica teve apresentação de cartazes que traziam mensagens como "Seja a empresa que você diz ser", "Forçado não é uma palavra que as mulheres gostam" e "Eu o denunciei e ele foi promovido".

foto: (Dania Maxwell / Los Angeles Times)
foto: (Dania Maxwell / Los Angeles Times)
 

A cultura machista da Riot Games


Em Agosto de 2018, o portal Kotaku publicou uma investigação expondo inúmeras atitudes sexistas da empresa Riot Games, como comportamentos e decisões consideradas machistas em sua forma de contratação, trabalho e promoção. A matéria reporta discriminações por gênero em vários âmbitos do campus de Los Angeles da Riot Games, indo desde entrevistas de emprego em que o histórico gamer (embora não obrigatório) era questionado quando se tratava de uma mulher, até o ambiente de trabalho, onde mulheres exerciam funções gerenciais sem receber salário equivalente ao cargo ou serem promovidas, enquanto homens menos qualificados eram contemplados. Há também denúncias de assédio aos Rioters, sendo as principais reportando funcionários do alto escalão da empresa por agarrar as genitais dos seus colegas de trabalho, e por rebaixar de cargo mulheres que negaram suas investidas sexuais.

A investigação levou oito meses para ser concluída, e contou com relatos de dezenas de funcionários e ex-funcionários da Riot. Após sua publicação, cinco funcionárias (antigas e atuais) da Riot iniciaram processos judiciais contra a empresa por discriminação de gênero.

A Riot publicou um pedido de desculpas 22 dias após a reportagem e anunciou a contratação de  especialistas como Frances Frei, professor da Harvard Business School que foi, anteriormente, contratado pela Uber para resolver problemas similares. Além disso, a empresa também confirmou que investigaria todas as reclamações dos funcionários.

Após a exposição, os empregados afirmaram que o ritmo da empresa desacelerou e, em alguns setores, parou brevemente. Os funcionários se reuniam durante folgas para se educar quanto aos comportamentos nocivos às mulheres e tentar imaginar como seria uma Riot diversificada e inclusiva; para refletir sobre suas ações passadas e presentes. Três fontes contaram à Kotaku que a Riot, no momento, lembrava um "barril de pólvora".

Ao fim do mês, a Riot publicou um texto pedindo desculpas aos seus funcionários, jogadores, às pessoas que consideravam uma carreira na empresa e aos seus parceiros, além de pontuar quais seriam as medidas tomadas para uma mudança em sua cultura. Duas fontes afirmaram que por volta de 30 funcionários deixaram a empresa nos meses seguintes, embora a causa dessas saídas não tenham sido confirmados e alguns tenham até se demitido.

Alguns funcionários, entretanto, se perguntavam se os membros dos patamares mais altos da hierarquia também seriam responsabilizados. Em Dezembro de 2018, três homens em posições de liderança que foram denunciados ainda trabalhavam na Riot. Mais tarde no mesmo mês, o COO Scott Gelb -acusado de tocar nas genitálias de funcionários homens- foi apenas afastado do cargo por dois meses sem direito a pagamento. O CEO Nicolo Laurent afirmou que "muitos dos rumores circulando sobre Scott na empresa, na mídia e em outros canais não são verdadeiros". A Kotaku perguntou quais dos rumores não eram verdadeiros, e um representante da empresa recusou-se a comentar mais sobre o assunto.

No final de Abril deste ano, a Riot movimentou um pedido legal para obrigar duas das cinco funcionárias que moviam processos a cancelar suas solicitações e iniciar uma arbitragem forçada -um método de resolução de conflitos que obriga funcionários a resolver, internamente, com um mediador escolhido pela empresa, qualquer problema que surja no ambiente de trabalho, sem direito a processar a empresa ou levar o caso à júri popular, por exemplo-.

Após as notícias sobre o pedido legal de arbitragem forçada se espalharem, funcionários da Riot começaram a organizar uma passeata. Na tentativa de amenizar o descontentamento dos empregados, a empresa realizou uma reunião geral e logo em seguida anunciou que daria aos novos funcionários a opção de não utilizar essa prática para casos envolvendo assédio e abuso sexual, assim que os processos jurídicos atuais fossem resolvidos. Os funcionários já contratados continuariam sob essa cláusula, mesmo para processos futuros.

A investigação da Kotaku, suas ramificações, a abertura de cinco processos e a tentativa de cancelar dois deles e trocá-los por arbitragem forçada foram o estopim para os Rioters. Considerando todos esses acontecimentos e ainda a passeata da Google, que conseguiu forçar a empresa a abandonar essa prática para casos de assédio e discriminação sexual em Março deste ano, os funcionários da Riot decidiram organizar sua própria passeata no campus de Los Angeles.



 A #RiotWalkout

Na última segunda-feira (6), manifestantes mostraram cartazes e falaram em megafones, exigindo que os líderes da Riot largassem a arbitragem forçada em todos os contratos passados, vigentes e futuros para todos os funcionários, e esclareceram que isso incluía permitir que os processos ativos continuassem em andamento da maneira que foram iniciados. Entre os dizeres dos cartazes estavam "Não deveria levar tudo isso [só] pra fazer a coisa certa" e "Silencie uma, e você silencia todos nós". Outra exigência era a apresentação de uma timeline, um cronograma que apresentasse exatamente quando aconteceriam as mudanças que a empresa prometeu e quais seriam. Os organizadores afirmaram que quem quisesse demonstrar seu apoio pelo movimento poderia usar a hashtag #RiotWalkout nas redes sociais.


Contatada para comentar a manifestação, a Riot deu uma declaração ao portal de notícias da Variety: "Nós apoiamos os Rioters que estão fazendo suas vozes serem ouvidas hoje. Nós pedimos que todos os gerentes fizessem todas as acomodações que permitissem que Rioters participassem durante o período de 14h-16h, incluindo liberar de reuniões. Respeitamos Rioters que escolheram se manifestar hoje e não toleraremos retaliação de nenhum tipo como resultado pela participação (ou não)."


Ao final da passeata, Jocelyn Monahan, estrategista de escuta social da Riot, anunciou que se a gestão da empresa não tomar nenhuma medida quanto à arbitragem forçada até 16 de Maio (a data da próxima Riot Unplugged, uma de suas reuniões quinzenais) ela e outros envolvidos na organização da passeata tomariam providências, sem especificar quais. Indu Reddy, escritora e uma das organizadoras da passeata, disse à Riot que "nós temos planos, há dias estamos planejando [fazer algo], e temos comprometimentos dos quais queremos ter respostas".


No campus de Dublin, na Irlanda, também foi realizada uma passeata contra a arbitragem forçada e o assédio sexual na terça-feira (7). A pequena manifestação contou com 18 funcionários e foi simbólica, apenas para expressar apoio pelo movimento de Los Angeles, pois na União Europeia tal prática é ilegal. "Somos uma empresa global e quando alguns de nós estão feridos, mesmo aqueles do outro lado do mundo, eu acho que vale a pena notar isso e ouvir as experiências e opiniões de outros Rioters", afirmou um funcionário de Dublin.



Discursos de Rioters no #RiotWalkout


"Estou saindo porque eu não quero ver gente que foi protegida por outros em altos cargos na Riot" - uma Rioter anunciando que se demitiria em duas semanas. Ao expressar preocupação em ser "rotulada como uma bandeira vermelha", ela acrescentou: "Eu nem passo mais tempo com meu marido que trabalha aqui, pois me preocupo que ele também será rotulado."

"Nós somos o que torna a Riot ótima. Eu quero que nós sintamos solidariedade e conexão com nós mesmos. Eu quero que a gente se sinta conectado. Eu quero que a gente sinta que nossas vozes são ouvidas e ouvidas de um jeito que importa" - Jocelyn Monahan, estrategista de escuta social da Riot e uma das organizadoras da passeata em entrevista à Kotaku.

foto: (Dania Maxwell / Los Angeles Times)
foto: (Dania Maxwell / Los Angeles Times)
 

"Até agora não vi não vi nem um resultado dos nossos esforços por diversidade ou inclusão na Riot. Eu não vi uma única medida ou número que indica que as coisas melhoraram e não vi um único projeto ser finalizado" - Funcionário (a) da Riot.

"Mesmo acreditando completamente que a Riot está fazendo tudo o que pode no momento para acabar com a arbitragem forçada, eu vejo valor na apresentação de uma voz unificada e não violenta. Como alguém com voz, estou emprestando-a a outros que sentem que não têm uma ou não conseguem ser ouvidos" - Funcionário da Riot.


Publicações no Twitter

"Fiquei em cima do muro quanto a comparecer ou não à #RiotWalkout e acabei falando sobre minhas experiências. Eu estava tão inspirada pelos rostos familiares na multidão e todas as vozes emprestando desde força a solidariedade. Eu acredito de verdade no progresso da Riot. Às pessoas se perguntando por quê alguns escolheram não comparecer, eu ouço vocês. Eu era essa pessoa. Se eu ainda trabalhasse na Microsoft, eu provavelmente não compareceria a uma passeata. Mas com o apoio da minha equipe e a garantia do meu gerente, e a liderança da Riot se opondo a [qualquer] retaliação, eu me senti segura. Alguns Rioters não se sentem seguros. Eles podem sentir que sua promoção ou segurança no trabalho pode estar em risco se falarem sobre esses problemas. Alguns compareceram apesar [de temer] isso. Tendo você comparecido ou não à #RiotWalkout hoje, posso te afirmar que mudanças para melhor estão acontecendo. Esse grupo de Rioters vai se certificar disso." - Iris Zhang, engenheira de software e responsável pela sustentabilidade.


"Hoje eu e vários colegas de trabalho meus estamos apoiando o que é certo, justo e honesto a respeito da Arbitragem Forçada e do Assédio Sexual. É 2019, e forçar qualquer um a sentar numa sala com a empresa/pessoa que fez isso e 'resolver na conversa' é inaceitável. #RiotWalkout" - Mel Capperino-Garcia, gerente de programas associados e apresentadora da #SummonerShowcase.

"E agora eu posso dizer: eu também sou uma das organizadoras da #RiotWalkout. Obrigada por comparecerem. Não se preocupe, nós vamos te carregar @RiotGames." (Tweet) - Xaafira, escritora da Riot.

"E veja bem, não é que eu (e várias colegas) não tenha levantado a bandeira em alguns momentos e me posicionado contra X ou Y. É só que eu já tinha desistido... Em parte por achar que pessoas não entendiam o real problema e não tinha como explicar, também por acreditar que muitas vezes eu não estava sabendo falar, também por simplesmente estar cansada... Teve que chegar nesse ponto de ter essa exposição para ser entendido como um problema sério. E ao mesmo tempo que fui tomada por sentimentos ruins, eu tava extremamente feliz porque não tinha mais como ser evitado. A Riot Games ia ter que olhar e resolver essa situação. Não tinha mais como não ser prioridade e todo mundo ia ter que entender." - Aylinn, Rioter brasileira, em Tweetlonger sobre o caso.


Seguiremos esperando que essa seja, de fato, uma nova fase na história da Riot, e que ela sirva de exemplo para outras desenvolvedoras de jogos, para que assim possamos, finalmente, ter uma comunidade justa e igualitária, nos moldes das empresas que administram tais comunidades.


Texto por Lana Juno. Você pode seguí-la no Twitter aqui.